Há imagens que atravessam o tempo. Mudam as cidades, mudam as famílias, mudam a medicina, surgem novas tecnologias, novas formas de viver e até novas maneiras de nos relacionarmos. Mas algumas cenas permanecem profundamente humanas. Uma mãe amamentando seu filho é uma delas.
Talvez porque, naquele instante, aconteça muito mais do que simplesmente alimentar.
Ali existe nutrição, claro. Existe proteção imunológica, desenvolvimento, prevenção de doenças e benefícios que a ciência conhece cada vez melhor. Mas existe também algo que nenhuma tabela consegue medir completamente: colo, cheiro, voz, toque, segurança e vínculo.
O primeiro alimento vem acompanhado de uma das primeiras mensagens que uma criança recebe da vida: há alguém aqui cuidando de mim.
Em tempos de tanta velocidade, essa talvez seja uma das razões pelas quais precisamos falar ainda mais sobre amamentação.
Vivemos a era da inteligência artificial, da comunicação instantânea, das respostas em segundos e de uma rotina que parece não admitir pausas. E então chega um bebê. Com sua fome, seu choro, seu sono desorganizado e sua absoluta dependência, ele nos recorda uma verdade quase esquecida: a vida tem seu próprio tempo.
Amamentar também pertence a esse tempo.
A ciência é inequívoca sobre seus benefícios. O leite materno é um alimento extraordinariamente adaptado às necessidades da criança, contribui para seu crescimento e desenvolvimento, fortalece suas defesas e ajuda a protegê-la de diversas doenças. Para a mulher, a amamentação também proporciona benefícios importantes à saúde. Por isso, organizações internacionais de saúde recomendam o aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses e sua continuidade, associada à alimentação complementar adequada, até os dois anos ou mais.
Mas há algo que precisamos dizer com a mesma clareza: amamentar não pode ser responsabilidade apenas da mãe.
Por muito tempo, nossa sociedade transformou a amamentação em uma recomendação dirigida quase exclusivamente à mulher. Dizemos que ela deve amamentar, mas nem sempre perguntamos se ela encontra condições para isso.
Quem cuida dessa mãe enquanto ela cuida?
Quem divide as noites mal dormidas, as tarefas da casa, as inseguranças e o cansaço? Quem oferece orientação quando surgem dificuldades? Quem garante que ela possa retornar ao trabalho sem precisar escolher entre sua profissão e a continuidade da amamentação?
Essas perguntas também fazem parte da Semana Mundial do Aleitamento Materno.
Porque defender a amamentação significa construir uma verdadeira rede de cuidado. Nela cabem o companheiro ou companheira, os avós, a família, os pediatras, obstetras, médicos de família, enfermeiros e todos os profissionais envolvidos na assistência. Cabem as maternidades, os bancos de leite humano, as empresas, os governos e as políticas públicas.
E cabe, sobretudo, respeito.
Respeito à mulher que amamenta em público. Àquela que precisa de ajuda. Àquela cuja amamentação não aconteceu como imaginava. Àquela que precisa retornar precocemente ao trabalho. E também àquela que, por razões médicas ou circunstâncias da vida, não pôde amamentar. Promover o aleitamento jamais deve significar produzir culpa.
Talvez seja essa a mensagem mais contemporânea que podemos deixar nesta Semana Mundial: não basta defender o leite materno; precisamos cuidar de quem amamenta.
Cada mãe apoiada representa uma criança que recebe melhores oportunidades de começar a vida com saúde. Cada ambiente de trabalho que acolhe a mulher que amamenta transforma um direito escrito em um direito verdadeiro. Cada profissional que escuta antes de julgar torna a medicina um pouco mais humana.
No fundo, falar de aleitamento materno é falar sobre a sociedade que queremos construir.
Uma sociedade que compreenda que cuidar da infância não começa na escola, nem quando aparecem as primeiras doenças. Começa muito antes. Começa nos primeiros dias, nos primeiros vínculos, nos primeiros gestos de proteção.
E talvez exista algo de profundamente simbólico nisso tudo: antes de aprender a falar, a andar ou mesmo a reconhecer o mundo, uma criança aprende o significado do cuidado.
Aprende no colo.
Aprende no toque.
Aprende naquele encontro silencioso entre dois olhares.
Nesta Semana Mundial do Aleitamento Materno, que possamos fazer mais do que celebrar a amamentação.
Que possamos protegê-la.
Que possamos apoiar quem amamenta.
E que, em meio a um mundo cada vez mais tecnológico e apressado, nunca percamos a capacidade de reconhecer a extraordinária grandeza dos gestos mais simples.
Porque, algumas vezes, alimentar uma criança é também a primeira maneira de dizer a ela, sem pronunciar uma única palavra: “você é importante, você está protegida, você é amada.”
Dr. José Albuquerque de Figueiredo Neto
Presidente do Conselho Regional de Medicina do Maranhão (CRM-MA)
