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Tudo começa com uma mão.

Uma mão muito pequena procurando outra, maior, ainda sem saber que aquele gesto tão simples será repetido de muitas formas ao longo de uma vida.

No começo, o filho segura o dedo do pai para não cair.

Depois, é o pai quem segura a bicicleta, corre alguns metros ao lado, finge que ainda está segurando e, em algum momento, solta.

O filho segue sozinho.

Talvez toda paternidade esteja contida nesse instante: segurar enquanto é preciso e saber soltar quando chega a hora.

Os filhos crescem.

Crescem depressa demais, embora os pais só percebam isso depois.

Um dia cabem nos braços. No outro, pedem a chave do carro. Depois chegam com decisões próprias, opiniões próprias, caminhos que já não nos pertencem.

E então compreendemos uma verdade que ninguém nos ensinou quando eles nasceram: filhos não nos foram dados para que os guardássemos. Foram confiados a nós para que os preparássemos para o mundo.

Ser pai é aprender essa delicada arte de permanecer sem aprisionar.

São José talvez seja a mais bonita imagem dessa paternidade silenciosa. Os Evangelhos não conservaram nenhuma de suas palavras. E, no entanto, sua presença atravessou dois mil anos.

Talvez porque alguns homens não precisem falar muito.

Sua vida fala por eles.

Há pais assim.

Não deixam grandes discursos. Deixam maneiras de viver.

O filho aprende honestidade observando como o pai age quando ninguém está olhando. Aprende respeito pela maneira como ele trata aqueles que nada podem lhe oferecer. Aprende coragem quando o vê enfrentar uma dificuldade sem transferir aos outros o peso de sua amargura. Aprende fé ao perceber que, mesmo nos dias difíceis, aquele homem continua acreditando que amanhã será possível recomeçar.

Os filhos observam muito antes de compreender.

E compreendem, muitas vezes, quando já não somos os mesmos.

Talvez por isso a paternidade tenha tanto a ver com o tempo.

No início, somos nós que esperamos o primeiro passo.

Depois, esperamos o filho voltar para casa.

Mais tarde, esperamos um telefonema.

Até que, silenciosamente, alguma coisa se inverte.

A mão que protegia começa a precisar de proteção.

O passo diminui.

Os cabelos embranquecem.

E chega um dia em que o filho oferece o braço ao homem que um dia o carregou nos ombros.

Não há tristeza nisso.

Há beleza.

É a vida fechando, com delicadeza, um círculo.

Para quem escolheu a Medicina, esse círculo tem uma particularidade.

O médico aprende cedo que há chamadas às quais não pode deixar de responder.

O telefone toca durante o almoço.

O plantão atravessa a madrugada.

Uma emergência desconhece domingos, aniversários e festas de família.

E há filhos de médicos que aprenderam, ainda pequenos, a perguntar:

— Pai, você vai demorar?

Às vezes, demoramos.

Perdemos a apresentação na escola.

Chegamos quando o bolo já foi cortado.

Encontramos a casa em silêncio e os filhos dormindo.

Guardamos uma culpa que raramente contamos a alguém.

Mas existe um dia em que aqueles filhos crescem.

E começam a compreender.

Percebem que, enquanto esperavam o pai voltar para casa, em algum hospital havia outra família esperando que ele chegasse.

Descobrem que certas ausências também eram uma forma de presença.

Que aquele homem que lhes fazia falta estava, naquele momento, tentando impedir que alguém fizesse falta para sempre em outra casa.

E talvez seja aí que a Medicina e a paternidade se encontrem de maneira mais profunda.

Nas duas, cuidar significa oferecer um pouco de si para que o outro possa continuar.

São Paulo escreveu que o amor jamais passa.

Todo o resto passa.

Passam os plantões.

Os consultórios mudam de endereço.

Os títulos envelhecem nas paredes.

Os cargos terminam.

Os aplausos se calam.

Até nossas maiores conquistas, aquelas que um dia pareceram imensas, tornam-se pequenas diante do tempo.

Mas um filho não esquece o pai que lhe ensinou a ser uma pessoa decente.

Não esquece uma mão sobre o ombro numa hora difícil.

Uma conversa no fim da noite.

Um conselho que, muitos anos depois, finalmente fez sentido.

Não esquece a segurança de saber que havia alguém a quem recorrer quando o mundo parecia grande demais.

Esse talvez seja o verdadeiro patrimônio de um pai.

Não aquilo que deixa para os filhos.

Mas aquilo que deixa nos filhos.

Neste Dia dos Pais, minha homenagem aos médicos do Maranhão é também uma homenagem ao homem que existe por baixo do jaleco.

Ao pai que cura pessoas, mas também amarra cadarços.

Que toma decisões difíceis durante o dia e, ao chegar em casa, ainda pergunta como foi a escola.

Ao homem acostumado a cuidar de tantos e que, muitas vezes, descobre nos braços dos próprios filhos o lugar onde também pode ser cuidado.

E minha homenagem alcança igualmente os pais que já partiram.

Porque há homens que, mesmo depois de ausentes, continuam segurando nossas mãos.

Nós os reconhecemos nas escolhas que fazemos, nas palavras que repetimos, nos valores que transmitimos aos nossos filhos.

É assim que um pai vence o tempo.

Não permanecendo para sempre ao nosso lado.

Mas deixando dentro de nós alguma coisa que o tempo não consegue levar.

Um dia, todas as mãos se despedem.

Mas, se tiverem amado verdadeiramente, antes de partir terão ensinado outras mãos a cuidar.

E talvez seja essa a mais bonita forma de eternidade que um pai pode alcançar.

Feliz Dia dos Pais aos médicos do Maranhão.

Que, ao final de nossas jornadas, nossos filhos possam esquecer nossos títulos, nossos cargos e até nossas conquistas — mas jamais esqueçam a mão que encontraram quando precisaram de nós.

Dr. José Albuquerque de Figueiredo Neto

Presidente do CRM-MA

 

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