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Senhoras e senhores, colegas médicos, psiquiatras, residentes, estudantes e todos que nos acompanham,

É uma grande alegria participar da abertura da XXIII Jornada Maranhense de Psiquiatria e XVI Jornada Norte de Psiquiatria.

E talvez nunca tenha sido tão oportuno falar de saúde mental quanto agora.

Vivemos um tempo de paradoxos. Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tantas pessoas se sentem sozinhas. Nunca tivemos tanta informação disponível e, paradoxalmente, convivemos com ansiedade, insegurança, intolerância e dificuldade de lidar com as próprias emoções. Temos pressa para tudo — para trabalhar, responder, produzir, decidir — mas quase nenhum tempo para perguntar a nós mesmos uma questão muito simples: como estamos, de verdade?

É nesse cenário que a Psiquiatria assume uma importância cada vez maior.

E ela está presente em todas as fases da vida.

Está na infância, quando precisamos perceber que determinados comportamentos não são simplesmente “coisas de criança”, mas podem representar sofrimento que merece ser compreendido.

Está na adolescência, hoje profundamente atravessada pelas redes sociais, pela exposição permanente, pela comparação, pela cobrança por desempenho e pela necessidade de pertencimento. A Organização Mundial da Saúde estima que um em cada sete adolescentes entre 10 e 19 anos vive com algum transtorno mental. (Organização Mundial da Saúde⁠)

Está na vida adulta, entre as exigências profissionais, familiares e econômicas, quando tantas pessoas aparentemente bem começam a descobrir que é possível continuar funcionando por fora enquanto algo vai se desorganizando por dentro.

E está também no envelhecimento. A solidão, as perdas, as doenças crônicas, as limitações funcionais e as mudanças de papel social podem comprometer profundamente o bem-estar emocional. Cerca de 14% das pessoas com 70 anos ou mais vivem com algum transtorno mental, segundo estimativas da OMS. (Organização Mundial da Saúde⁠)

Portanto, falar de saúde mental é falar da vida inteira. A própria OMS vem defendendo uma abordagem da saúde ao longo de todo o curso da vida — da infância ao envelhecimento — reconhecendo que experiências, vulnerabilidades e fatores de proteção se acumulam e influenciam nossa trajetória. (Organização Mundial da Saúde⁠)

Mas, nesta Jornada, permitam-me chamar atenção para um grupo que nos diz respeito muito de perto: nós, médicos.

Fomos treinados para reconhecer o sofrimento do outro. Para ouvir. Para diagnosticar. Para cuidar. Mas nem sempre fomos ensinados a reconhecer quando somos nós que precisamos de cuidado.

A cultura médica ainda carrega uma perigosa ideia de invulnerabilidade: o médico que não pode adoecer, que não pode demonstrar fragilidade, que precisa suportar plantões, cobranças, conflitos, privação de sono, sobrecarga e responsabilidade permanente como se tudo isso não deixasse marcas.

Deixa.

A literatura contemporânea vem mostrando de maneira consistente a dimensão dos problemas relacionados ao burnout, à ansiedade e à depressão entre médicos e residentes. (Frontiers⁠) E uma revisão sistemática publicada em 2025 mostrou algo igualmente importante: intervenções direcionadas aos médicos podem efetivamente reduzir sintomas de transtornos mentais comuns. (Nature⁠)

Isso significa que não basta falar sobre o problema. É possível — e necessário — agir.

Precisamos construir ambientes de trabalho mais humanos, combater o estigma, oferecer acesso confidencial ao cuidado e, sobretudo, abandonar a ideia de que pedir ajuda representa fraqueza.

Talvez uma das grandes contribuições da Psiquiatria contemporânea seja justamente esta: lembrar à Medicina que não existe saúde verdadeira quando a mente é deixada de lado.

E lembrar também que por trás de cada diagnóstico existe uma pessoa. Existe uma história, uma família, afetos, medos, perdas, expectativas e sonhos. A boa Psiquiatria não pode se limitar ao transtorno; precisa enxergar o ser humano que o experimenta.

Por isso, encontros como esta Jornada são tão importantes. Aqui discutiremos ciência, novas evidências, diagnóstico, terapêutica e inovação. Mas espero que façamos também algo ainda mais essencial: conversar sobre pessoas.

Sobre crianças que precisam ser ouvidas.

Sobre adolescentes que precisam ser compreendidos.

Sobre adultos sobrecarregados que precisam reaprender seus limites.

Sobre idosos que precisam continuar encontrando pertencimento, dignidade e sentido.

E sobre médicos que também precisam ser cuidados.

Que esta XXIII Jornada Maranhense de Psiquiatria e XVI Jornada Norte de Psiquiatria seja, portanto, mais do que um encontro científico. Que seja um espaço de conhecimento, troca, acolhimento e reflexão.

Porque cuidar da mente não é um detalhe da Medicina.

É cuidar daquilo que nos torna profundamente humanos.

Desejo a todos uma excelente Jornada, grandes discussões e, sobretudo, bons encontros.

Muito obrigado.

Dr. José Albuquerque de Figueiredo Neto
Presidente do Conselho Regional de Medicina do Maranhão (CRM-MA)

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