A Medicina brasileira vive um momento que exige reflexão. Mais do que discutir o surgimento de novas entidades representativas, precisamos discutir quais valores são inegociáveis para o exercício da profissão: formação de qualidade, ética e compromisso com a ciência.
A recente reportagem publicada pelo Estado de S. Paulo sobre a criação da Ordem Médica Brasileira (OMB) trouxe à tona questões que ultrapassam uma eventual disputa institucional. Independentemente da confirmação ou não dos fatos narrados — que devem ser rigorosamente apurados, com respeito ao contraditório e ao devido processo legal — ela nos convida a refletir sobre os rumos da Medicina brasileira.
A credibilidade da Medicina foi construída sobre três pilares fundamentais: formação rigorosa, ética profissional e prática baseada em evidências científicas. Esses princípios não pertencem a uma entidade ou a um grupo de médicos; pertencem à sociedade, que deposita em nós sua confiança nos momentos de maior fragilidade.
O título de especialista não é uma honraria nem um instrumento de marketing. Ele representa anos de residência médica ou treinamento equivalente, supervisão qualificada, avaliação de competências e experiência clínica. É essa formação que permite ao médico reconhecer situações complexas, evitar erros e tratar complicações. Acima de tudo, é um importante mecanismo de proteção ao paciente.
Por isso, qualquer iniciativa que possa gerar confusão entre certificações privadas e o reconhecimento oficial das especialidades médicas merece reflexão cuidadosa. O paciente tem o direito de saber quem é, efetivamente, especialista reconhecido em determinada área, e esse direito não pode ser relativizado.
Outra preocupação diz respeito à crescente associação entre determinados segmentos da Medicina e modelos de negócio baseados na venda de protocolos, cursos, mentorias, hormônios, implantes e tratamentos apresentados como soluções para emagrecimento, longevidade ou melhora da performance.
É evidente que o médico deve ser justamente remunerado pelo seu trabalho. O problema surge quando o interesse econômico passa a influenciar a indicação de exames, medicamentos ou procedimentos. A decisão clínica deve ser orientada exclusivamente pelo melhor interesse do paciente e pelas melhores evidências científicas disponíveis.
A história da Medicina ensina que inúmeras terapias consideradas promissoras foram abandonadas após estudos demonstrarem ausência de benefício ou mesmo aumento de riscos. É exatamente por isso que a Medicina baseada em evidências existe: para proteger pacientes contra intervenções ineficazes ou potencialmente prejudiciais.
Como cardiologista, vejo essa preocupação de forma ainda mais clara. O uso indiscriminado de hormônios, medicamentos para emagrecimento e outras terapias metabólicas pode trazer consequências cardiovasculares importantes quando empregado sem critérios rigorosos de indicação, acompanhamento e respaldo científico.
Vivemos também uma realidade em que as redes sociais conferem enorme visibilidade aos profissionais. Entretanto, seguidores não substituem formação, popularidade não substitui competência e marketing não substitui ciência.
A Medicina sempre será maior do que qualquer entidade, qualquer grupo ou qualquer modelo de negócios. Nossa maior responsabilidade continua sendo preservar a confiança que a sociedade deposita em seus médicos.
Cabe aos Conselhos de Medicina, às sociedades de especialidade, às academias médicas e às demais instituições comprometidas com a boa prática defender padrões elevados de formação, combater a publicidade enganosa, esclarecer a população sobre o significado do Registro de Qualificação de Especialista (RQE) e promover uma Medicina verdadeiramente baseada em evidências.
Este não é um debate corporativo. É um debate sobre proteção do paciente.
A autonomia médica é um valor essencial, mas ela jamais pode ser confundida com a liberdade de abandonar o método científico ou relativizar a ética profissional. Nossa autonomia existe para escolher, entre as alternativas cientificamente válidas, aquela que oferece maior benefício e menor risco ao paciente.
Se esta discussão contribuir para fortalecer a formação médica, valorizar as especialidades reconhecidas, aperfeiçoar a fiscalização ética e reafirmar o compromisso da Medicina brasileira com a ciência, ela terá cumprido um papel importante.
Porque, ao final, a credibilidade da profissão não se sustenta em títulos, cargos ou discursos. Ela se sustenta na confiança da sociedade. E essa confiança somente é preservada quando a Medicina permanece fiel à ciência, à ética e ao paciente.
Dr. José Albuquerque
Médico Cardiologista
Presidente do Conselho Regional de Medicina do Maranhão
Membro da Academia Maranhense de Medicina
