Na prevenção do suicídio, o acolhimento e o acesso à assistência devem fazer parte da rotina — inclusive para quem dedica a vida a cuidar dos outros.
Setembro chega ao fim, mas o sofrimento de quem precisa de ajuda não acompanha o calendário das campanhas. A atenção à saúde mental deve permanecer nas famílias, nos serviços de saúde, nas universidades e nas relações de trabalho durante todo o ano.
O Setembro Amarelo nos convida a conversar sobre prevenção do suicídio com responsabilidade, sem julgamentos ou explicações simplistas. Cada pessoa tem uma história. Quem está sofrendo precisa encontrar escuta, respeito e acesso ao cuidado.
No Conselho Regional de Medicina do Maranhão, preocupa-nos também a saúde dos próprios médicos.
Estamos habituados a perguntar aos pacientes como se sentem. Nem sempre encontramos espaço para responder à mesma pergunta com sinceridade. Entre consultas, plantões e responsabilidades, o próprio cuidado pode ser adiado. Há receio de exposição, preocupação com a carreira, dificuldade de interromper o trabalho e, muitas vezes, vergonha de admitir que é preciso ajuda.
Nem sempre é fácil falar sobre isso entre colegas. Um médico deve poder dizer que não está bem sem ser desqualificado por isso. Conhecimento técnico e experiência profissional não eliminam a necessidade de receber cuidado.
As perdas de colegas por suicídio no último ano nos tocaram profundamente. Ao lembrá-los, expressamos nosso respeito por suas histórias e nossa solidariedade às famílias, aos amigos e às equipes. Essa memória pede sensibilidade e compromisso, sem atribuir culpa a quem permanece vivendo o luto.
Cuidar de quem cuida exige responsabilidade compartilhada.
Precisamos examinar as condições em que a medicina é exercida: sobrecarga, violência, assédio, jornadas excessivas e insegurança profissional devem fazer parte dessa discussão. Recomendar autocuidado tem valor, mas é preciso oferecer condições para que ele aconteça.
Hospitais, gestores, universidades e entidades médicas precisam oferecer respostas concretas. Isso inclui organizar caminhos de atendimento, proteger a privacidade, facilitar o acesso à assistência e acolher com respeito quem precisa se afastar ou retornar ao trabalho após um tratamento.
Esse cuidado começa na formação médica, na maneira como professores e preceptores tratam estudantes e residentes. Eles precisam encontrar orientação quando enfrentam dificuldades. Humilhação e desprezo não podem ser aceitos como métodos de ensino.
Entre colegas, podemos começar abrindo espaço para uma conversa reservada, ouvindo sem minimizar o sofrimento e ajudando a buscar atendimento. Não é necessário ter todas as respostas para oferecer presença e apoio.
Ao médico que está atravessando um momento difícil, nossa mensagem é direta: sua saúde merece atenção. Você tem direito a receber o mesmo cuidado que recomenda aos seus pacientes. Procurar ajuda é uma atitude legítima e merece respeito.
O CRM-MA reafirma seu compromisso com a valorização da vida, a defesa de condições dignas de trabalho e o debate permanente sobre a saúde mental dos médicos.
Ao encerrar setembro, fica uma pergunta para o nosso cotidiano: estamos dando aos colegas a atenção que gostaríamos de receber? A resposta estará na maneira como vamos acolhê-los durante o restante do ano.
José Albuquerque de Figueiredo Neto
Presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Maranhão — CRM-MA